O cabaré está cheio como sempre e escrevo com uma caneta- bem mais confortável do que os bicos de pena, bem menos romântica, como tudo que vocês insistem em fazer- num guardanapo algumas impressões que vocês, criaturas do hoje, me passam. Meus olhos lutam contra a penumbra, minha atenção encontra-se numa vã escaramuça com a torta mixagem de vozes, risos e de uma música que não compreendo bem, mas que admito agradar-me. Em certos momentos, o barulho lembra-me dos primeiros barris de pólvora que explodiram, dos portões de ferro das fortalezas, das vozes de trovoada dos juízes que jogavam os conspiradores nas masmorras fétidas. Além da tontura que me causam os sôfregos e compulsivos goles da cerveja que se esvaí de uma caneca de vidro, meus olhos e atenção voltam-se igualmente para uma linda camponesa que dança célere, enredada pela própria sensualidade que procura passar, sensualidade que se espalha como corrente de ar, como perfume de flor no campo, que se cristaliza e esbofeteia os desafetos odores de suor, álcool, tabaco e também as faces e miocárdios dos pobres e perdidos cavalheiros que vagam no recinto. Sempre fomos pobres e perdidos. A miséria e o andar em círculos são antigos companheiros, não estão superados como vocês pretensiosamente supõem. A tecnologia, a mirabolante e estonteante roda-viva de novidades, a rapidez de tudo, não protege suas gentes dos compartimentos básicos de suas almas. Suas máscaras podem ser mais realistas do que aquelas que eram usadas nos bailes de meu tempo, mas são menos eficazes.
Vocês se julgam intrépidos, frios, racionais, mas não são tão diferentes do que eu fui e sou. Compartilhamos da mesma busca e da mesma dor. Os potentes analgésicos e as miríficas pílulas encerradas nas caixas com a faixa de luto conseguem aliviá-la? Vamos, mintam para si mesmos ao dizer com empáfia que sim. Envergonham-se como vira-latas que furtam lingüiças num festival ao admitir que o pólen da flor dançarina os atrai. Temem-na como se planta carnívora fosse. É, e eu lhes pergunto: quem pode dizer que viveu de fato se não foi tragado? Por isso, voam ao redor, sugam uma parcela mínima- pensando ter consumido a totalidade; tolos!- e não repousam em nenhuma. O que não é exclusividade dos senhores, cavalheiros, devo ser um pouco indulgente. Muitas flores hodiernas vêm repetindo com freqüência os gestos de vocês, pedras, por conta de uma ideologia que pretende equalizar a mais bela das disparidades. Como se possível fosse igualar dois diferentes pólos, sem que se criasse algo fora de lugar, quando não hediondo. Compreendo em parte, porque arrancamos muitas pétalas, em torneios e guerras egoístas. E confesso ser um enforcamento d’alma ver as suaves plantas tornando-se ásperas como lixas e ignorando um dom gentilmente cedido pelo jardineiro do mundo, ferindo a si mesmas e àqueles que ainda seriam capazes de colhê-las com suavidade. E a distância aumenta. Quando um quer, dois brigam.
Fuga: é isso o que se dá. Empanturram-se, todos vocês, mas permanecem com os estômagos desertos. Enquanto isso, o suco gástrico, sentinela que desconhece o sono, corrói. Eis aqui a grande diferença entre as gentes da minha época e as gentes modernas: éramos mais corajosos, mais densos. Tais “pesos”, dos quais vocês procuram se desvencilhar tão logo a gravidade os puxa, estão aí. A despeito de estarmos cercados de estátuas, éramos muito mais livres nas questões do amor e do sexo do que vocês na sua era iconoclasta. A ciência pode fazer um pato mudar de cor como um sinal de trânsito e cantar como um barítono-garganta-de-gelatina, mas não pode salvá-los da doce armadilha de coelho que está eternamente engatilhada e que tem a fantástica capacidade de ser inoxidável, embora tenha sido instalada numa época em que não havia caça nem caçadores- e muito menos facas que cortam latas de refrigerante. Devo dizer que patos não combinam com testas humanas. Explico em outra ocasião...
A insólita bola que gira no espaço não é regida pelas leis daquele Sir cujo cocuruto foi bombardeado pela fruta do pecado, mas pelas leis do coração enamorado e bronzeado pelas labaredas do sentimento rei. Peço licença, pois acabo de receber uma nova caneca de cerveja. Beberei mais uns goles e tentarei levar a flor do campo que baila no salão para minha estufa a céu aberto e estrelado.
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2 comentários:
Muito raramente, surge um ou outro humano que merece a admiração desta senhora a quem o tempo não tirou o gume das garras nem a disposição de agredir a bestialidade. Digo que o sr. Bastos merece meus respeitos.
Carina Avgvsta
Antológico.
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