E eis que desandei a caminhar sem rumo pela cidade, fotografando com os olhos cada centímetro de calçada, de meio-fio, de hidrante e de poste. Acho que nunca vou me acostumar ao mar de concreto, piche e ferro que cobre os verdes gramados de um passado distante. As poucas árvores que vejo aqui e ali me parecem tristes sobreviventes, meras peças de exposição, simples figuração, escombros vivos, fontes de oxigênio que gritam com sua bocas retorcidas por socorro. Minha mente está torta. Você pega uma peça de roupa e enxágua e depois torce para retirar o excesso de líquido: minha cabeça, minha mente, meu cérebro, como queira chamar. Folhas que giram num redemoinho invisível e enfeitiçado, como os ingredientes de uma batida num liquidificador. Um videoclipe, com sua sucessão de imagens e referências. Balanço, aquela cadeira presa por correntes, num parque, empurrado por mãos que não querem parar- são as suas mãos? Diga que são, não sentiria textura semelhante, a memória da epiderme não comete enganos, bitte, diga que são as suas mãos-, porque tudo está em movimento, as pedras estão, igualmente as paredes, apenas fingem fleuma. Resultado de dúzias de latas de cerveja, minha amada cerveja, minha amada...
No dia em que tudo foi descoberto, tive que fugir, pensava ser algo temporário, mas não foi. O fato é que fugi e apenas pude ver você por alguns instantes, diante da janela de seu quarto, dormindo, falei sem palavras, tentei ler seus sonhos como um arqueólogo diante de um pedaço de escrita cuneiforme, imaginei toques e beijos e a luz bruxuleante do candelabro respondia com suas frases de velas. Não pude dizer a você o que queria, não pude fazer um convite de fuga, não pude arriscar sua segurança. Os poderosos ficam até o momento em que não são mais úteis. A partir daí, tornam-se igualmente perseguidos e instantes depois, lembranças odiadas e apagadas.
De repente, todas as pessoas que passavam por mim e todos os veículos e também todas as coisas fixas no concreto começaram a me sufocar- tal como a corda que certamente envolveria meu pescoço. Tossi, mas peguei um outro cigarro no meu bolso. Andei como um míssil teleguiado, como um pássaro guiado por seu instinto buscando o calor, como a boca de um bebê que procura o seio materno e vi a porta que já me era familiar. Por um instante tremi, diante da possibilidade da colisão de meu nariz aquilino com a madeira escura e riscada da entrada. Encostei uma das orelhas na porta e pude ouvir o som familiar de balbúrdia, o falatório, a música, os risos... Estiquei a mão e empurrei a pesada porta.
O cabaré nunca fecha. Lá dentro, as luzes dançam no meio das sombras. Não há luzes nas árvores de Natal? Lá dentro, existe um tipo de festa ou uma mistura de festas- festas particulares e coletivas que fundem-se, que colidem como meteoros-, e o Natal não é uma festa? Há comida, há bebida. Há melancolia e alegria. Há abraços, fugidios e prolongados. Há presentes, os que podem ser desembrulhados e tocados, bem como os sutis. Há um espírito, uma substância qualquer, um humor, uma presença. Não é como o Natal? Estou em casa. Garçom! Oi, garota, quer se sentar? Beba alguma coisa... Feliz Natal!
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Um comentário:
Já me esqueci em que página encontrei, se é que não trata de sonho, eis que algumas delícias sintéticas cobram seu certo preço, que todos, em verdade, já falecemos, assim como os que amamos e detestamos e a crença e as aflições, desejos e esperanças de nos considerarmos vivos são os mais refinados dos suplícios infernais.
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