Não... Estou bem. É normal que a bebida tire um pouco de minha acidez. Apenas não quero falar. Por que quer tanto saber de mim? Odeio essas sangrias masculinas. Quer descobrir meu passado, penetrar por entre minhas perfídias e descobrir, talvez, alguma fraqueza por debaixo da patente?
Ora, faça-me um favor. Daqui a pouco enxotar-nos-ão do recinto... Já amanhece... Não, meu querido, não... shhhh. Hoje não direi nada. Não me venha com perguntas. Se eu começar, minha fraqueza tomará corpo. Ah, vocês, homens. NÃO. Pare. Eu não direi nada...
Odeio isso que você chama de amor. É isso que torna as pessoas fracas, sabia? É isso que dá a elas uma sensação de ser manipulada... Sim, estou bêbada. Mas não sei porque continua comigo... Deveria ir embora. Não há nada mais deprimente que contemplar uma mulher bêbada. Olhe! hahahahaha... Meu rímel está escorrendo...
Essa visão decrépita te excita? hein? Diz! Não, não diga nada. Vá embora, pois você eu não quero. Não quero nenhum de vocês daqui... Nenhum de vocês que e olham com esses olhares libidinosos. Tomarei meu capote e irei...
Nada de abraços... Os seus, não os quero.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
Ah, um poema...
Já ignoro -e tanto se me dá - se cito ao certo o poeta que estudei com rigor nos bancos escolares de London, mas agora o êxtase da morfina faz com que esse verbo se enevoe em minha memória, enquanto uma bela jovem, talvez real, talvez imaginária, afasta-se, com leves passos, e também rio sem sentido de quem - presente, sonhado, recordado - tentava me fazer crer que os nativos pretendem expulsar o Império desta terra, que civilizamos... mas de que eu dizia, mesmo? ah, um poeta... antes de adormecer (durmo, deliro por instantes?), enquanto as luzes empalidecem, parecem empalideceer talvez a lembrança de alguém a que não ousaria repetir o agro nome, me faz repetir...
Had I the heaven's embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light;
I would spread the cloth under you feet;
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet,
Tread softly because you tread on my dreams.
Yeats, acho... mas já não é preciso tanta sutileza, embora já tenha sido, e não fui ouvido quando pedi, citando, em juventude, o poeta. Pisem agora por onde quiserem, sapateiem, e sirvam-me mais absinto.
Had I the heaven's embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light;
I would spread the cloth under you feet;
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet,
Tread softly because you tread on my dreams.
Yeats, acho... mas já não é preciso tanta sutileza, embora já tenha sido, e não fui ouvido quando pedi, citando, em juventude, o poeta. Pisem agora por onde quiserem, sapateiem, e sirvam-me mais absinto.
domingo, 24 de dezembro de 2006
Refúgio
E eis que desandei a caminhar sem rumo pela cidade, fotografando com os olhos cada centímetro de calçada, de meio-fio, de hidrante e de poste. Acho que nunca vou me acostumar ao mar de concreto, piche e ferro que cobre os verdes gramados de um passado distante. As poucas árvores que vejo aqui e ali me parecem tristes sobreviventes, meras peças de exposição, simples figuração, escombros vivos, fontes de oxigênio que gritam com sua bocas retorcidas por socorro. Minha mente está torta. Você pega uma peça de roupa e enxágua e depois torce para retirar o excesso de líquido: minha cabeça, minha mente, meu cérebro, como queira chamar. Folhas que giram num redemoinho invisível e enfeitiçado, como os ingredientes de uma batida num liquidificador. Um videoclipe, com sua sucessão de imagens e referências. Balanço, aquela cadeira presa por correntes, num parque, empurrado por mãos que não querem parar- são as suas mãos? Diga que são, não sentiria textura semelhante, a memória da epiderme não comete enganos, bitte, diga que são as suas mãos-, porque tudo está em movimento, as pedras estão, igualmente as paredes, apenas fingem fleuma. Resultado de dúzias de latas de cerveja, minha amada cerveja, minha amada...
No dia em que tudo foi descoberto, tive que fugir, pensava ser algo temporário, mas não foi. O fato é que fugi e apenas pude ver você por alguns instantes, diante da janela de seu quarto, dormindo, falei sem palavras, tentei ler seus sonhos como um arqueólogo diante de um pedaço de escrita cuneiforme, imaginei toques e beijos e a luz bruxuleante do candelabro respondia com suas frases de velas. Não pude dizer a você o que queria, não pude fazer um convite de fuga, não pude arriscar sua segurança. Os poderosos ficam até o momento em que não são mais úteis. A partir daí, tornam-se igualmente perseguidos e instantes depois, lembranças odiadas e apagadas.
De repente, todas as pessoas que passavam por mim e todos os veículos e também todas as coisas fixas no concreto começaram a me sufocar- tal como a corda que certamente envolveria meu pescoço. Tossi, mas peguei um outro cigarro no meu bolso. Andei como um míssil teleguiado, como um pássaro guiado por seu instinto buscando o calor, como a boca de um bebê que procura o seio materno e vi a porta que já me era familiar. Por um instante tremi, diante da possibilidade da colisão de meu nariz aquilino com a madeira escura e riscada da entrada. Encostei uma das orelhas na porta e pude ouvir o som familiar de balbúrdia, o falatório, a música, os risos... Estiquei a mão e empurrei a pesada porta.
O cabaré nunca fecha. Lá dentro, as luzes dançam no meio das sombras. Não há luzes nas árvores de Natal? Lá dentro, existe um tipo de festa ou uma mistura de festas- festas particulares e coletivas que fundem-se, que colidem como meteoros-, e o Natal não é uma festa? Há comida, há bebida. Há melancolia e alegria. Há abraços, fugidios e prolongados. Há presentes, os que podem ser desembrulhados e tocados, bem como os sutis. Há um espírito, uma substância qualquer, um humor, uma presença. Não é como o Natal? Estou em casa. Garçom! Oi, garota, quer se sentar? Beba alguma coisa... Feliz Natal!
No dia em que tudo foi descoberto, tive que fugir, pensava ser algo temporário, mas não foi. O fato é que fugi e apenas pude ver você por alguns instantes, diante da janela de seu quarto, dormindo, falei sem palavras, tentei ler seus sonhos como um arqueólogo diante de um pedaço de escrita cuneiforme, imaginei toques e beijos e a luz bruxuleante do candelabro respondia com suas frases de velas. Não pude dizer a você o que queria, não pude fazer um convite de fuga, não pude arriscar sua segurança. Os poderosos ficam até o momento em que não são mais úteis. A partir daí, tornam-se igualmente perseguidos e instantes depois, lembranças odiadas e apagadas.
De repente, todas as pessoas que passavam por mim e todos os veículos e também todas as coisas fixas no concreto começaram a me sufocar- tal como a corda que certamente envolveria meu pescoço. Tossi, mas peguei um outro cigarro no meu bolso. Andei como um míssil teleguiado, como um pássaro guiado por seu instinto buscando o calor, como a boca de um bebê que procura o seio materno e vi a porta que já me era familiar. Por um instante tremi, diante da possibilidade da colisão de meu nariz aquilino com a madeira escura e riscada da entrada. Encostei uma das orelhas na porta e pude ouvir o som familiar de balbúrdia, o falatório, a música, os risos... Estiquei a mão e empurrei a pesada porta.
O cabaré nunca fecha. Lá dentro, as luzes dançam no meio das sombras. Não há luzes nas árvores de Natal? Lá dentro, existe um tipo de festa ou uma mistura de festas- festas particulares e coletivas que fundem-se, que colidem como meteoros-, e o Natal não é uma festa? Há comida, há bebida. Há melancolia e alegria. Há abraços, fugidios e prolongados. Há presentes, os que podem ser desembrulhados e tocados, bem como os sutis. Há um espírito, uma substância qualquer, um humor, uma presença. Não é como o Natal? Estou em casa. Garçom! Oi, garota, quer se sentar? Beba alguma coisa... Feliz Natal!
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Drinking.
Mais uma garrafa... Gosto dessa água. Tem gosto de outras delícias...
Lembro-me do último que tentou embebedar-me para arriscar a sorte de tirar esse trapo que agora mesmo depus nessa... Cadeira. Nem parecia um oficial... Nem parecia um camarada de anos. Já ouviu falar em treinamento militar? Suportar interpéries diversas? Suporto com dignidade as interpéries internas ocasionadas pela bebida...
Mordi-o. Sua mão sangrou com voluptuosidade, diria. Tive meu prazer... Mas ele era um fraco. FRACO. Fraco ao ponto de pensar em embebedar-me para obter o que desejava...
Sabe, às vezes me farto de brutalidades. Farto-me também delas em seus refinamentos. Quantas torturas, quantos gestos friamente calculados! Torturei muitos. Muitos me torturaram. Estou cansada desse quartel... Da impecabilidade na qual tenho que me apresentar, dos pensamentos viscerais que ela provoca no restante do batalhão. Esse rímel que uso agora... Lancôme. Sim, importado. Parte do orçamento vai para a manutenção da imagem da corporação. Argumento bem válido. Ajuste de uniformes... Modelagem sob medida. A burocracia russa me encanta...
Tem fósforos? Isqueiros privam o melhor da nicotina...
Lembro-me do último que tentou embebedar-me para arriscar a sorte de tirar esse trapo que agora mesmo depus nessa... Cadeira. Nem parecia um oficial... Nem parecia um camarada de anos. Já ouviu falar em treinamento militar? Suportar interpéries diversas? Suporto com dignidade as interpéries internas ocasionadas pela bebida...
Mordi-o. Sua mão sangrou com voluptuosidade, diria. Tive meu prazer... Mas ele era um fraco. FRACO. Fraco ao ponto de pensar em embebedar-me para obter o que desejava...
Sabe, às vezes me farto de brutalidades. Farto-me também delas em seus refinamentos. Quantas torturas, quantos gestos friamente calculados! Torturei muitos. Muitos me torturaram. Estou cansada desse quartel... Da impecabilidade na qual tenho que me apresentar, dos pensamentos viscerais que ela provoca no restante do batalhão. Esse rímel que uso agora... Lancôme. Sim, importado. Parte do orçamento vai para a manutenção da imagem da corporação. Argumento bem válido. Ajuste de uniformes... Modelagem sob medida. A burocracia russa me encanta...
Tem fósforos? Isqueiros privam o melhor da nicotina...
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
Flug
É fácil voar. Não há a necessidade de asas orgânicas, nem das metálicas. Voei até o Chiemsee, onde ficava a pequena cabana onde eu vivi por muitos anos. Auto-exílio. Por essa cabana, passavam aqueles- habitantes do vilarejo onde eu morava anteriormente- que faziam questão de pensar alto a meu respeito. “Louco”, “Feiticeiro”, “Amigo de Lúcifer” etc. Mas ficaram para trás e agora nem primos em segundo grau de cinzas de charuto eles o são.
Minha solidão era sempre quebrada, no meio da semana, pela visita secreta de uma dama do malfadado vilarejo. Petra, o nome dela. Era casada com um homem de muitas posses, comerciante, freqüentador de nobres recintos. Posso lhes assegurar que o Cabaré, meu amado Cabaré, é bem mais digno. Aqui, as pessoas são muito menos o que elas não são, ao contrário dos assíduos daqueles locais entupidos de pompa, vaidade e de facas nas costas.
Petra! Dama de altura mediana, de cabelos ondulados. Oceano castanho e revolto. Olhos claros como o céu- por isso eu vôo, é no céu que se plana, é no céu que se pode soprar as nuvens e moldá-las como figuras de neve, é no céu que também se cai. Lábios que roubavam a minha boca- e a língua e a alma e o diamante assimétrico de Fingerhut e tartaruga de Galápagos e o ritual Zulu de despedida e... De mãos e pés delicados para o amor, porém firmes como bigornas para momentos de guerra- na primeira vez em que a cantei, esmurrou-me o queixo. Jab de direita! Personalidade arrebatadora, espírito abissal milagrosamente gerado num ambiente hostil e medíocre. Pernas que me enlaçavam como um torno e que depois se escondiam numa saia, na hora do adeus, na hora em que ela subia pelo gramado, apressada, como um esquilo saltitante e ansioso... A voz, a voz atingia variantes de tons agudos e médios, nos diálogos à mesa e quando convertíamos o estreito leito do casebre numa planície, num vórtice, num choque entre placas subterrâneas e...
-Herr Dieter! Herr Dieter! Lamento, temos que fechar...
Maldita invenção moderna, a do co-piloto...
Minha solidão era sempre quebrada, no meio da semana, pela visita secreta de uma dama do malfadado vilarejo. Petra, o nome dela. Era casada com um homem de muitas posses, comerciante, freqüentador de nobres recintos. Posso lhes assegurar que o Cabaré, meu amado Cabaré, é bem mais digno. Aqui, as pessoas são muito menos o que elas não são, ao contrário dos assíduos daqueles locais entupidos de pompa, vaidade e de facas nas costas.
Petra! Dama de altura mediana, de cabelos ondulados. Oceano castanho e revolto. Olhos claros como o céu- por isso eu vôo, é no céu que se plana, é no céu que se pode soprar as nuvens e moldá-las como figuras de neve, é no céu que também se cai. Lábios que roubavam a minha boca- e a língua e a alma e o diamante assimétrico de Fingerhut e tartaruga de Galápagos e o ritual Zulu de despedida e... De mãos e pés delicados para o amor, porém firmes como bigornas para momentos de guerra- na primeira vez em que a cantei, esmurrou-me o queixo. Jab de direita! Personalidade arrebatadora, espírito abissal milagrosamente gerado num ambiente hostil e medíocre. Pernas que me enlaçavam como um torno e que depois se escondiam numa saia, na hora do adeus, na hora em que ela subia pelo gramado, apressada, como um esquilo saltitante e ansioso... A voz, a voz atingia variantes de tons agudos e médios, nos diálogos à mesa e quando convertíamos o estreito leito do casebre numa planície, num vórtice, num choque entre placas subterrâneas e...
-Herr Dieter! Herr Dieter! Lamento, temos que fechar...
Maldita invenção moderna, a do co-piloto...
domingo, 17 de dezembro de 2006
Cheios do vazio
O cabaré está cheio como sempre e escrevo com uma caneta- bem mais confortável do que os bicos de pena, bem menos romântica, como tudo que vocês insistem em fazer- num guardanapo algumas impressões que vocês, criaturas do hoje, me passam. Meus olhos lutam contra a penumbra, minha atenção encontra-se numa vã escaramuça com a torta mixagem de vozes, risos e de uma música que não compreendo bem, mas que admito agradar-me. Em certos momentos, o barulho lembra-me dos primeiros barris de pólvora que explodiram, dos portões de ferro das fortalezas, das vozes de trovoada dos juízes que jogavam os conspiradores nas masmorras fétidas. Além da tontura que me causam os sôfregos e compulsivos goles da cerveja que se esvaí de uma caneca de vidro, meus olhos e atenção voltam-se igualmente para uma linda camponesa que dança célere, enredada pela própria sensualidade que procura passar, sensualidade que se espalha como corrente de ar, como perfume de flor no campo, que se cristaliza e esbofeteia os desafetos odores de suor, álcool, tabaco e também as faces e miocárdios dos pobres e perdidos cavalheiros que vagam no recinto. Sempre fomos pobres e perdidos. A miséria e o andar em círculos são antigos companheiros, não estão superados como vocês pretensiosamente supõem. A tecnologia, a mirabolante e estonteante roda-viva de novidades, a rapidez de tudo, não protege suas gentes dos compartimentos básicos de suas almas. Suas máscaras podem ser mais realistas do que aquelas que eram usadas nos bailes de meu tempo, mas são menos eficazes.
Vocês se julgam intrépidos, frios, racionais, mas não são tão diferentes do que eu fui e sou. Compartilhamos da mesma busca e da mesma dor. Os potentes analgésicos e as miríficas pílulas encerradas nas caixas com a faixa de luto conseguem aliviá-la? Vamos, mintam para si mesmos ao dizer com empáfia que sim. Envergonham-se como vira-latas que furtam lingüiças num festival ao admitir que o pólen da flor dançarina os atrai. Temem-na como se planta carnívora fosse. É, e eu lhes pergunto: quem pode dizer que viveu de fato se não foi tragado? Por isso, voam ao redor, sugam uma parcela mínima- pensando ter consumido a totalidade; tolos!- e não repousam em nenhuma. O que não é exclusividade dos senhores, cavalheiros, devo ser um pouco indulgente. Muitas flores hodiernas vêm repetindo com freqüência os gestos de vocês, pedras, por conta de uma ideologia que pretende equalizar a mais bela das disparidades. Como se possível fosse igualar dois diferentes pólos, sem que se criasse algo fora de lugar, quando não hediondo. Compreendo em parte, porque arrancamos muitas pétalas, em torneios e guerras egoístas. E confesso ser um enforcamento d’alma ver as suaves plantas tornando-se ásperas como lixas e ignorando um dom gentilmente cedido pelo jardineiro do mundo, ferindo a si mesmas e àqueles que ainda seriam capazes de colhê-las com suavidade. E a distância aumenta. Quando um quer, dois brigam.
Fuga: é isso o que se dá. Empanturram-se, todos vocês, mas permanecem com os estômagos desertos. Enquanto isso, o suco gástrico, sentinela que desconhece o sono, corrói. Eis aqui a grande diferença entre as gentes da minha época e as gentes modernas: éramos mais corajosos, mais densos. Tais “pesos”, dos quais vocês procuram se desvencilhar tão logo a gravidade os puxa, estão aí. A despeito de estarmos cercados de estátuas, éramos muito mais livres nas questões do amor e do sexo do que vocês na sua era iconoclasta. A ciência pode fazer um pato mudar de cor como um sinal de trânsito e cantar como um barítono-garganta-de-gelatina, mas não pode salvá-los da doce armadilha de coelho que está eternamente engatilhada e que tem a fantástica capacidade de ser inoxidável, embora tenha sido instalada numa época em que não havia caça nem caçadores- e muito menos facas que cortam latas de refrigerante. Devo dizer que patos não combinam com testas humanas. Explico em outra ocasião...
A insólita bola que gira no espaço não é regida pelas leis daquele Sir cujo cocuruto foi bombardeado pela fruta do pecado, mas pelas leis do coração enamorado e bronzeado pelas labaredas do sentimento rei. Peço licença, pois acabo de receber uma nova caneca de cerveja. Beberei mais uns goles e tentarei levar a flor do campo que baila no salão para minha estufa a céu aberto e estrelado.
Vocês se julgam intrépidos, frios, racionais, mas não são tão diferentes do que eu fui e sou. Compartilhamos da mesma busca e da mesma dor. Os potentes analgésicos e as miríficas pílulas encerradas nas caixas com a faixa de luto conseguem aliviá-la? Vamos, mintam para si mesmos ao dizer com empáfia que sim. Envergonham-se como vira-latas que furtam lingüiças num festival ao admitir que o pólen da flor dançarina os atrai. Temem-na como se planta carnívora fosse. É, e eu lhes pergunto: quem pode dizer que viveu de fato se não foi tragado? Por isso, voam ao redor, sugam uma parcela mínima- pensando ter consumido a totalidade; tolos!- e não repousam em nenhuma. O que não é exclusividade dos senhores, cavalheiros, devo ser um pouco indulgente. Muitas flores hodiernas vêm repetindo com freqüência os gestos de vocês, pedras, por conta de uma ideologia que pretende equalizar a mais bela das disparidades. Como se possível fosse igualar dois diferentes pólos, sem que se criasse algo fora de lugar, quando não hediondo. Compreendo em parte, porque arrancamos muitas pétalas, em torneios e guerras egoístas. E confesso ser um enforcamento d’alma ver as suaves plantas tornando-se ásperas como lixas e ignorando um dom gentilmente cedido pelo jardineiro do mundo, ferindo a si mesmas e àqueles que ainda seriam capazes de colhê-las com suavidade. E a distância aumenta. Quando um quer, dois brigam.
Fuga: é isso o que se dá. Empanturram-se, todos vocês, mas permanecem com os estômagos desertos. Enquanto isso, o suco gástrico, sentinela que desconhece o sono, corrói. Eis aqui a grande diferença entre as gentes da minha época e as gentes modernas: éramos mais corajosos, mais densos. Tais “pesos”, dos quais vocês procuram se desvencilhar tão logo a gravidade os puxa, estão aí. A despeito de estarmos cercados de estátuas, éramos muito mais livres nas questões do amor e do sexo do que vocês na sua era iconoclasta. A ciência pode fazer um pato mudar de cor como um sinal de trânsito e cantar como um barítono-garganta-de-gelatina, mas não pode salvá-los da doce armadilha de coelho que está eternamente engatilhada e que tem a fantástica capacidade de ser inoxidável, embora tenha sido instalada numa época em que não havia caça nem caçadores- e muito menos facas que cortam latas de refrigerante. Devo dizer que patos não combinam com testas humanas. Explico em outra ocasião...
A insólita bola que gira no espaço não é regida pelas leis daquele Sir cujo cocuruto foi bombardeado pela fruta do pecado, mas pelas leis do coração enamorado e bronzeado pelas labaredas do sentimento rei. Peço licença, pois acabo de receber uma nova caneca de cerveja. Beberei mais uns goles e tentarei levar a flor do campo que baila no salão para minha estufa a céu aberto e estrelado.
Smoking.
Khorocho. Tiro o capote puído e assento-me de frente para as despudoradas do palco. Tempo faz que não freqüento uma casa noturna. Olhares curiosos em volta. Belo semblante feminino, não? "Não, meu senhor, não sou daqui e não visto-me assim por fetiche de algum de vocês". Apenas quero beber hoje...
Belo costume adquirido com a camaradagem. Apenas homens... Homens em meu círculo de convívio. Ir beber e ver mulheres. Geralmente banhava-me em destilados enquanto o grupo fornicava com as damas.
Não tinha eu usufrutos? Ora, tive minhas diversões. Se subjugar militares e torturados for uma diversão... Sente-se excitado vendo-me com insígnias? É, admito que elas caem à maravilha no capote e ornam com o batom vermelho. Dar-me-ia um cigarro? Agradeço...
Quer pagar-me uma bebida? Uma garrafa, por favor. Doses são para mulherzinhas... Não, meu caro, dinheiro é coisa do demônio. Ficaria contente apenas com uma demonstração de força... Mas, por hora, à vodka.
Belo costume adquirido com a camaradagem. Apenas homens... Homens em meu círculo de convívio. Ir beber e ver mulheres. Geralmente banhava-me em destilados enquanto o grupo fornicava com as damas.
Não tinha eu usufrutos? Ora, tive minhas diversões. Se subjugar militares e torturados for uma diversão... Sente-se excitado vendo-me com insígnias? É, admito que elas caem à maravilha no capote e ornam com o batom vermelho. Dar-me-ia um cigarro? Agradeço...
Quer pagar-me uma bebida? Uma garrafa, por favor. Doses são para mulherzinhas... Não, meu caro, dinheiro é coisa do demônio. Ficaria contente apenas com uma demonstração de força... Mas, por hora, à vodka.
Misterioso palácio, eu digo...
Não sei o que me trouxe a estes portais, mas me encantei com o deslumbramento de luxo, de seu requinte, de sua extravagância oriental. Semelha algo como um templo, ou um bordel... e da esdrúxula maneira que estes podem ser semelhantes. Ainda há pouco uma jovem encantadora me conduziu a uma mesa, em salão algo sombrio, ainda que elegante. Acomodado, contemplei o inacreditável cardápio, e enfim pedi: sopa de tartaruga de Nanquim, um púcaro com absinto e uma jovem recoberta apenas por iguarias do Oriente distante. Em segundos, tudo pareceu desaparecer, mas logo um formoso senhor reapareceu para me atender. Pedi, deslumbrado, sopa de tartaruga de Macau, lagostas aferventadas ainda vivas, e sobriamente recobertas por ervas e vinho, e o mesmo púcaro de absinto. E também a jovem, mas apenas como uma dócil e servil companhia. Aguardo. Que curioso lugar, eu digo!
Assinar:
Postagens (Atom)