quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Nacktheit

Desencanto foi o que achei que iria sentir ao ver o cabaré despido de suas sombras, lâmpadas negras, da música e das garrafas de boliche bípedes que costumam encher os diversos ambientes da casa ao entrar lá, numa tarde em que eu me encontrava despido do que fazer.

Já sou como um camundongo familiar que aparece todos os dias para furtar um resto de couvert, como uma mesa ou cadeira, de tanto meus dois corpos ocuparem aquele mesmo lugar, contrariando axiomas enquanto me espalho pachorrento na cadeira quase cativa.

No palco, seis garotas tentavam ensaiar uma coreografia, orquestradas por um coreógrafo irritadiço e afetado. Parecia um ouriço-do-mar regendo meia-dúzia de sereias. A garota do meio sorriu enquanto eu fazia minha genuflexão diante da mesa. Luisa. Foi a paramédica que me socorreu prontamente quando da minha inusitada chegada ao vosso século. O cabaré foi minha primeira casa. E continua sendo: o quarto de hotel onde desabo todas as manhãs como um deprimente morcego- já dormi como um deles, não me perguntem como- é um local pouco importante, na verdade.

Alguns garçons cuidavam de um ou outro preparativo para a noite. Numa mesa próxima ao palco, os donos jogavam pôquer, bebiam, gargalhavam, distribuíam broncas, tal como membros de uma organização Mazzini. As lâmpadas acesas, com suas luzes que brigavam para penetrar nas paredes forradas de veludo, mostravam um outro mundo, não menos encantador do que aquele que eu conhecia. Então, permiti a mim mesmo um sumiço, uma fusão- como de costume-, com aquele pequeno vale. Dentro de poucas horas, o sol das lâmpadas seria engolido por um dragão esfaimado e eu não perderia aquilo por nada.

2 comentários:

Lolita Tcheribaskáia disse...

Reconheço que ando sumida - devo estar chorando em algum canto por aí.

Dieter disse...

Nein, venha rir ou mesmo chorar nos infinitos cantos do Cabaré!