Primeiro, eu vi uma imagem aparecer no ar; depois, tentei tocar a imagem. É inútil agarrar uma imagem; pode-se aprisioná-la no pensamento. Então você pode brincar de criador e dar movimentos, trejeitos, tom de voz, humor, virtudes e mesmo doces vícios; trabalhar com um pedaço de mármore e fazer a figura do tamanho que se quer. Eis que ela cria vida e movimenta-se como bem entende, através dos corredores de sua cabeça. O artista perde o controle. A criatura chega nos momentos em que você quer estar só; sai noutros em que se precisa ver nas paredes uma sombra que não seja a sua. No entanto, o artista ri de tais desobediências. Em algum momento, os papéis invertem-se e a obra de arte pode pousar o artista num lugar de destaque, bem como pode encerrá-lo num porão; pode vendê-lo e até fragmentá-lo em centenas de pedaços, com a simples força da vontade, com a mesmíssima força que serviu de ferramenta para dar contorno às suas formas.
Eu ri, pois seria inútil criar um Danúbio naquele carpete recém-pregado às tábuas. Quanto ao Danúbio, vá lá, mas e a embarcação? Já vi uma variedade imensa de fatos, exceto uma glândula secretar madeira.
Há dias em que nada acontece. Nessas ocasiões, ainda se é assombrado por uma incômoda sensação de perpetuidade da estagnação. O dia seguinte parece uma especulação louca. Resolvi voltar para o meu mundo de papelão. Enquanto eu andava e via os carros e ônibus e até um avião que cruzou os céus, pensei no quanto éramos mais livres e móveis ao usar os cavalos e os próprios pés. As distâncias eram menores. Está rindo? Tudo bem...
Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007
Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007
Nacktheit
Desencanto foi o que achei que iria sentir ao ver o cabaré despido de suas sombras, lâmpadas negras, da música e das garrafas de boliche bípedes que costumam encher os diversos ambientes da casa ao entrar lá, numa tarde em que eu me encontrava despido do que fazer.
Já sou como um camundongo familiar que aparece todos os dias para furtar um resto de couvert, como uma mesa ou cadeira, de tanto meus dois corpos ocuparem aquele mesmo lugar, contrariando axiomas enquanto me espalho pachorrento na cadeira quase cativa.
No palco, seis garotas tentavam ensaiar uma coreografia, orquestradas por um coreógrafo irritadiço e afetado. Parecia um ouriço-do-mar regendo meia-dúzia de sereias. A garota do meio sorriu enquanto eu fazia minha genuflexão diante da mesa. Luisa. Foi a paramédica que me socorreu prontamente quando da minha inusitada chegada ao vosso século. O cabaré foi minha primeira casa. E continua sendo: o quarto de hotel onde desabo todas as manhãs como um deprimente morcego- já dormi como um deles, não me perguntem como- é um local pouco importante, na verdade.
Alguns garçons cuidavam de um ou outro preparativo para a noite. Numa mesa próxima ao palco, os donos jogavam pôquer, bebiam, gargalhavam, distribuíam broncas, tal como membros de uma organização Mazzini. As lâmpadas acesas, com suas luzes que brigavam para penetrar nas paredes forradas de veludo, mostravam um outro mundo, não menos encantador do que aquele que eu conhecia. Então, permiti a mim mesmo um sumiço, uma fusão- como de costume-, com aquele pequeno vale. Dentro de poucas horas, o sol das lâmpadas seria engolido por um dragão esfaimado e eu não perderia aquilo por nada.
Já sou como um camundongo familiar que aparece todos os dias para furtar um resto de couvert, como uma mesa ou cadeira, de tanto meus dois corpos ocuparem aquele mesmo lugar, contrariando axiomas enquanto me espalho pachorrento na cadeira quase cativa.
No palco, seis garotas tentavam ensaiar uma coreografia, orquestradas por um coreógrafo irritadiço e afetado. Parecia um ouriço-do-mar regendo meia-dúzia de sereias. A garota do meio sorriu enquanto eu fazia minha genuflexão diante da mesa. Luisa. Foi a paramédica que me socorreu prontamente quando da minha inusitada chegada ao vosso século. O cabaré foi minha primeira casa. E continua sendo: o quarto de hotel onde desabo todas as manhãs como um deprimente morcego- já dormi como um deles, não me perguntem como- é um local pouco importante, na verdade.
Alguns garçons cuidavam de um ou outro preparativo para a noite. Numa mesa próxima ao palco, os donos jogavam pôquer, bebiam, gargalhavam, distribuíam broncas, tal como membros de uma organização Mazzini. As lâmpadas acesas, com suas luzes que brigavam para penetrar nas paredes forradas de veludo, mostravam um outro mundo, não menos encantador do que aquele que eu conhecia. Então, permiti a mim mesmo um sumiço, uma fusão- como de costume-, com aquele pequeno vale. Dentro de poucas horas, o sol das lâmpadas seria engolido por um dragão esfaimado e eu não perderia aquilo por nada.
Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006
X.
Não... Estou bem. É normal que a bebida tire um pouco de minha acidez. Apenas não quero falar. Por que quer tanto saber de mim? Odeio essas sangrias masculinas. Quer descobrir meu passado, penetrar por entre minhas perfídias e descobrir, talvez, alguma fraqueza por debaixo da patente?
Ora, faça-me um favor. Daqui a pouco enxotar-nos-ão do recinto... Já amanhece... Não, meu querido, não... shhhh. Hoje não direi nada. Não me venha com perguntas. Se eu começar, minha fraqueza tomará corpo. Ah, vocês, homens. NÃO. Pare. Eu não direi nada...
Odeio isso que você chama de amor. É isso que torna as pessoas fracas, sabia? É isso que dá a elas uma sensação de ser manipulada... Sim, estou bêbada. Mas não sei porque continua comigo... Deveria ir embora. Não há nada mais deprimente que contemplar uma mulher bêbada. Olhe! hahahahaha... Meu rímel está escorrendo...
Essa visão decrépita te excita? hein? Diz! Não, não diga nada. Vá embora, pois você eu não quero. Não quero nenhum de vocês daqui... Nenhum de vocês que e olham com esses olhares libidinosos. Tomarei meu capote e irei...
Nada de abraços... Os seus, não os quero.
Ora, faça-me um favor. Daqui a pouco enxotar-nos-ão do recinto... Já amanhece... Não, meu querido, não... shhhh. Hoje não direi nada. Não me venha com perguntas. Se eu começar, minha fraqueza tomará corpo. Ah, vocês, homens. NÃO. Pare. Eu não direi nada...
Odeio isso que você chama de amor. É isso que torna as pessoas fracas, sabia? É isso que dá a elas uma sensação de ser manipulada... Sim, estou bêbada. Mas não sei porque continua comigo... Deveria ir embora. Não há nada mais deprimente que contemplar uma mulher bêbada. Olhe! hahahahaha... Meu rímel está escorrendo...
Essa visão decrépita te excita? hein? Diz! Não, não diga nada. Vá embora, pois você eu não quero. Não quero nenhum de vocês daqui... Nenhum de vocês que e olham com esses olhares libidinosos. Tomarei meu capote e irei...
Nada de abraços... Os seus, não os quero.
Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2006
Ah, um poema...
Já ignoro -e tanto se me dá - se cito ao certo o poeta que estudei com rigor nos bancos escolares de London, mas agora o êxtase da morfina faz com que esse verbo se enevoe em minha memória, enquanto uma bela jovem, talvez real, talvez imaginária, afasta-se, com leves passos, e também rio sem sentido de quem - presente, sonhado, recordado - tentava me fazer crer que os nativos pretendem expulsar o Império desta terra, que civilizamos... mas de que eu dizia, mesmo? ah, um poeta... antes de adormecer (durmo, deliro por instantes?), enquanto as luzes empalidecem, parecem empalideceer talvez a lembrança de alguém a que não ousaria repetir o agro nome, me faz repetir...
Had I the heaven's embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light;
I would spread the cloth under you feet;
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet,
Tread softly because you tread on my dreams.
Yeats, acho... mas já não é preciso tanta sutileza, embora já tenha sido, e não fui ouvido quando pedi, citando, em juventude, o poeta. Pisem agora por onde quiserem, sapateiem, e sirvam-me mais absinto.
Had I the heaven's embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light;
I would spread the cloth under you feet;
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet,
Tread softly because you tread on my dreams.
Yeats, acho... mas já não é preciso tanta sutileza, embora já tenha sido, e não fui ouvido quando pedi, citando, em juventude, o poeta. Pisem agora por onde quiserem, sapateiem, e sirvam-me mais absinto.
Domingo, 24 de Dezembro de 2006
Refúgio
E eis que desandei a caminhar sem rumo pela cidade, fotografando com os olhos cada centímetro de calçada, de meio-fio, de hidrante e de poste. Acho que nunca vou me acostumar ao mar de concreto, piche e ferro que cobre os verdes gramados de um passado distante. As poucas árvores que vejo aqui e ali me parecem tristes sobreviventes, meras peças de exposição, simples figuração, escombros vivos, fontes de oxigênio que gritam com sua bocas retorcidas por socorro. Minha mente está torta. Você pega uma peça de roupa e enxágua e depois torce para retirar o excesso de líquido: minha cabeça, minha mente, meu cérebro, como queira chamar. Folhas que giram num redemoinho invisível e enfeitiçado, como os ingredientes de uma batida num liquidificador. Um videoclipe, com sua sucessão de imagens e referências. Balanço, aquela cadeira presa por correntes, num parque, empurrado por mãos que não querem parar- são as suas mãos? Diga que são, não sentiria textura semelhante, a memória da epiderme não comete enganos, bitte, diga que são as suas mãos-, porque tudo está em movimento, as pedras estão, igualmente as paredes, apenas fingem fleuma. Resultado de dúzias de latas de cerveja, minha amada cerveja, minha amada...
No dia em que tudo foi descoberto, tive que fugir, pensava ser algo temporário, mas não foi. O fato é que fugi e apenas pude ver você por alguns instantes, diante da janela de seu quarto, dormindo, falei sem palavras, tentei ler seus sonhos como um arqueólogo diante de um pedaço de escrita cuneiforme, imaginei toques e beijos e a luz bruxuleante do candelabro respondia com suas frases de velas. Não pude dizer a você o que queria, não pude fazer um convite de fuga, não pude arriscar sua segurança. Os poderosos ficam até o momento em que não são mais úteis. A partir daí, tornam-se igualmente perseguidos e instantes depois, lembranças odiadas e apagadas.
De repente, todas as pessoas que passavam por mim e todos os veículos e também todas as coisas fixas no concreto começaram a me sufocar- tal como a corda que certamente envolveria meu pescoço. Tossi, mas peguei um outro cigarro no meu bolso. Andei como um míssil teleguiado, como um pássaro guiado por seu instinto buscando o calor, como a boca de um bebê que procura o seio materno e vi a porta que já me era familiar. Por um instante tremi, diante da possibilidade da colisão de meu nariz aquilino com a madeira escura e riscada da entrada. Encostei uma das orelhas na porta e pude ouvir o som familiar de balbúrdia, o falatório, a música, os risos... Estiquei a mão e empurrei a pesada porta.
O cabaré nunca fecha. Lá dentro, as luzes dançam no meio das sombras. Não há luzes nas árvores de Natal? Lá dentro, existe um tipo de festa ou uma mistura de festas- festas particulares e coletivas que fundem-se, que colidem como meteoros-, e o Natal não é uma festa? Há comida, há bebida. Há melancolia e alegria. Há abraços, fugidios e prolongados. Há presentes, os que podem ser desembrulhados e tocados, bem como os sutis. Há um espírito, uma substância qualquer, um humor, uma presença. Não é como o Natal? Estou em casa. Garçom! Oi, garota, quer se sentar? Beba alguma coisa... Feliz Natal!
No dia em que tudo foi descoberto, tive que fugir, pensava ser algo temporário, mas não foi. O fato é que fugi e apenas pude ver você por alguns instantes, diante da janela de seu quarto, dormindo, falei sem palavras, tentei ler seus sonhos como um arqueólogo diante de um pedaço de escrita cuneiforme, imaginei toques e beijos e a luz bruxuleante do candelabro respondia com suas frases de velas. Não pude dizer a você o que queria, não pude fazer um convite de fuga, não pude arriscar sua segurança. Os poderosos ficam até o momento em que não são mais úteis. A partir daí, tornam-se igualmente perseguidos e instantes depois, lembranças odiadas e apagadas.
De repente, todas as pessoas que passavam por mim e todos os veículos e também todas as coisas fixas no concreto começaram a me sufocar- tal como a corda que certamente envolveria meu pescoço. Tossi, mas peguei um outro cigarro no meu bolso. Andei como um míssil teleguiado, como um pássaro guiado por seu instinto buscando o calor, como a boca de um bebê que procura o seio materno e vi a porta que já me era familiar. Por um instante tremi, diante da possibilidade da colisão de meu nariz aquilino com a madeira escura e riscada da entrada. Encostei uma das orelhas na porta e pude ouvir o som familiar de balbúrdia, o falatório, a música, os risos... Estiquei a mão e empurrei a pesada porta.
O cabaré nunca fecha. Lá dentro, as luzes dançam no meio das sombras. Não há luzes nas árvores de Natal? Lá dentro, existe um tipo de festa ou uma mistura de festas- festas particulares e coletivas que fundem-se, que colidem como meteoros-, e o Natal não é uma festa? Há comida, há bebida. Há melancolia e alegria. Há abraços, fugidios e prolongados. Há presentes, os que podem ser desembrulhados e tocados, bem como os sutis. Há um espírito, uma substância qualquer, um humor, uma presença. Não é como o Natal? Estou em casa. Garçom! Oi, garota, quer se sentar? Beba alguma coisa... Feliz Natal!
Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006
Drinking.
Mais uma garrafa... Gosto dessa água. Tem gosto de outras delícias...
Lembro-me do último que tentou embebedar-me para arriscar a sorte de tirar esse trapo que agora mesmo depus nessa... Cadeira. Nem parecia um oficial... Nem parecia um camarada de anos. Já ouviu falar em treinamento militar? Suportar interpéries diversas? Suporto com dignidade as interpéries internas ocasionadas pela bebida...
Mordi-o. Sua mão sangrou com voluptuosidade, diria. Tive meu prazer... Mas ele era um fraco. FRACO. Fraco ao ponto de pensar em embebedar-me para obter o que desejava...
Sabe, às vezes me farto de brutalidades. Farto-me também delas em seus refinamentos. Quantas torturas, quantos gestos friamente calculados! Torturei muitos. Muitos me torturaram. Estou cansada desse quartel... Da impecabilidade na qual tenho que me apresentar, dos pensamentos viscerais que ela provoca no restante do batalhão. Esse rímel que uso agora... Lancôme. Sim, importado. Parte do orçamento vai para a manutenção da imagem da corporação. Argumento bem válido. Ajuste de uniformes... Modelagem sob medida. A burocracia russa me encanta...
Tem fósforos? Isqueiros privam o melhor da nicotina...
Lembro-me do último que tentou embebedar-me para arriscar a sorte de tirar esse trapo que agora mesmo depus nessa... Cadeira. Nem parecia um oficial... Nem parecia um camarada de anos. Já ouviu falar em treinamento militar? Suportar interpéries diversas? Suporto com dignidade as interpéries internas ocasionadas pela bebida...
Mordi-o. Sua mão sangrou com voluptuosidade, diria. Tive meu prazer... Mas ele era um fraco. FRACO. Fraco ao ponto de pensar em embebedar-me para obter o que desejava...
Sabe, às vezes me farto de brutalidades. Farto-me também delas em seus refinamentos. Quantas torturas, quantos gestos friamente calculados! Torturei muitos. Muitos me torturaram. Estou cansada desse quartel... Da impecabilidade na qual tenho que me apresentar, dos pensamentos viscerais que ela provoca no restante do batalhão. Esse rímel que uso agora... Lancôme. Sim, importado. Parte do orçamento vai para a manutenção da imagem da corporação. Argumento bem válido. Ajuste de uniformes... Modelagem sob medida. A burocracia russa me encanta...
Tem fósforos? Isqueiros privam o melhor da nicotina...
Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006
Flug
É fácil voar. Não há a necessidade de asas orgânicas, nem das metálicas. Voei até o Chiemsee, onde ficava a pequena cabana onde eu vivi por muitos anos. Auto-exílio. Por essa cabana, passavam aqueles- habitantes do vilarejo onde eu morava anteriormente- que faziam questão de pensar alto a meu respeito. “Louco”, “Feiticeiro”, “Amigo de Lúcifer” etc. Mas ficaram para trás e agora nem primos em segundo grau de cinzas de charuto eles o são.
Minha solidão era sempre quebrada, no meio da semana, pela visita secreta de uma dama do malfadado vilarejo. Petra, o nome dela. Era casada com um homem de muitas posses, comerciante, freqüentador de nobres recintos. Posso lhes assegurar que o Cabaré, meu amado Cabaré, é bem mais digno. Aqui, as pessoas são muito menos o que elas não são, ao contrário dos assíduos daqueles locais entupidos de pompa, vaidade e de facas nas costas.
Petra! Dama de altura mediana, de cabelos ondulados. Oceano castanho e revolto. Olhos claros como o céu- por isso eu vôo, é no céu que se plana, é no céu que se pode soprar as nuvens e moldá-las como figuras de neve, é no céu que também se cai. Lábios que roubavam a minha boca- e a língua e a alma e o diamante assimétrico de Fingerhut e tartaruga de Galápagos e o ritual Zulu de despedida e... De mãos e pés delicados para o amor, porém firmes como bigornas para momentos de guerra- na primeira vez em que a cantei, esmurrou-me o queixo. Jab de direita! Personalidade arrebatadora, espírito abissal milagrosamente gerado num ambiente hostil e medíocre. Pernas que me enlaçavam como um torno e que depois se escondiam numa saia, na hora do adeus, na hora em que ela subia pelo gramado, apressada, como um esquilo saltitante e ansioso... A voz, a voz atingia variantes de tons agudos e médios, nos diálogos à mesa e quando convertíamos o estreito leito do casebre numa planície, num vórtice, num choque entre placas subterrâneas e...
-Herr Dieter! Herr Dieter! Lamento, temos que fechar...
Maldita invenção moderna, a do co-piloto...
Minha solidão era sempre quebrada, no meio da semana, pela visita secreta de uma dama do malfadado vilarejo. Petra, o nome dela. Era casada com um homem de muitas posses, comerciante, freqüentador de nobres recintos. Posso lhes assegurar que o Cabaré, meu amado Cabaré, é bem mais digno. Aqui, as pessoas são muito menos o que elas não são, ao contrário dos assíduos daqueles locais entupidos de pompa, vaidade e de facas nas costas.
Petra! Dama de altura mediana, de cabelos ondulados. Oceano castanho e revolto. Olhos claros como o céu- por isso eu vôo, é no céu que se plana, é no céu que se pode soprar as nuvens e moldá-las como figuras de neve, é no céu que também se cai. Lábios que roubavam a minha boca- e a língua e a alma e o diamante assimétrico de Fingerhut e tartaruga de Galápagos e o ritual Zulu de despedida e... De mãos e pés delicados para o amor, porém firmes como bigornas para momentos de guerra- na primeira vez em que a cantei, esmurrou-me o queixo. Jab de direita! Personalidade arrebatadora, espírito abissal milagrosamente gerado num ambiente hostil e medíocre. Pernas que me enlaçavam como um torno e que depois se escondiam numa saia, na hora do adeus, na hora em que ela subia pelo gramado, apressada, como um esquilo saltitante e ansioso... A voz, a voz atingia variantes de tons agudos e médios, nos diálogos à mesa e quando convertíamos o estreito leito do casebre numa planície, num vórtice, num choque entre placas subterrâneas e...
-Herr Dieter! Herr Dieter! Lamento, temos que fechar...
Maldita invenção moderna, a do co-piloto...
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